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3 de outubro de 2008

#5 - Superlópez


Pois não. Desta vez não se trata duma banda desenhada underground, nem tampouco da típica história sesuda e intelectual orientada a um público «adulto». Desta vez trata-se dum simples tebeo, sem outras pretensões que as de tentar entreter e divertir. Ainda que isso sim, um entretemento que procure ao mesmo tempo reflectir sobre a sociedade ou a cultura.

Desde logo não é que Superlópez, seja a «obra definitiva» da BD ou algo polo estilo. Certamente podem-se-lhe criticar muitas cousas (por exemplo esse moralismo tão acusado nalguns momentos como com o tema das drogas). Mas, ao mesmo tempo, estas histórias também têm uma série de virtudes que fazem que mereça a pena botar-lhes uma olhada. A começar polo seu humor tão próprio dos países do Sul de Europa. Um humor desintelectualizado, mas sinceiro e gráfico, de tortazos e com um toque de absurdo. Um humor de «bocadillo de chouriço».

Superlópez, a obra mais emblemática de Juan López, Jan, é ante todo uma paródia de Superman (e em geral das histórias de super-heróis). Superlópez, cujo equivalente na Galiza bem poderia ser um Supervasques ou um Superrodrigues (vaia, mais uma razão para sentir-me identificado), representa a imagem típica do espanhol comum, baixinho, moreno e com bigode. Todo um «Supermedianias», que constitui uma versão cutre do Homem de aço: o seu planeta e nomes originais, Chitón e Jo-Con-Él; a sua moça Luisa Lana (Lois Lane) namoradíssima do seu alter ego Juan López e que não suporta a Superlópez; os chichones que se pega; etc.

Mas como diziamos anteriormente também há lugar para a reflexão. Assim, em muitas das suas histórias podemo-nos encontrar a Superlópez viajando no tempo e conhecendo a V. van Gogh; um robot que cita aos clássicos da filosofia; críticas ao estrago produzido polo ser humano no meio ambiente; uma defesa do direito ao trabalho; etc.

Entre as mais de 50 histórias que até o de agora têm saído de Superlópez, a maioria da gente adoita coincidir em sinalar duas como as indiscutivelmente melhores. Por suposto, não lim todas as suas histórias mas sim poderia dizer que estas duas são realmente magníficas.

A primeira delas é Los Cabecicubos (1982) na qual se trata o tema da Transición espanhola com uma grande imaginação e humor (aviso: que ninguém aguarde uma leitura esquerdista sobre o período). A contaminação derivada duma fábrica de ovos quadrados produz uma estranha epidemia que converte à população em cabecicubos. A partir de aí desenvolvem-se toda uma série de situações absurdas (tão absurdas coma o próprio franquismo), nas que o nosso (super-)herói se terá de enfrentar a um regímen fascista de partido único.

A outra das histórias e que também é a minha favorita é La Caja de Pandora (1983). Desta vez, Superlópez terá de enfrentarse a toda uma plêiade de deuses e seres mitológicos das culturas grega, mexica, hindu e egípcia, por fazer-se com o poder da Caixa de Pandora. Mas o quê contém essa caixa, preguntaredes. Pois isso é algo que não vou revelar. Contentade-vos com saber que os deuses se dividem entre os que acreditam que alô se agocham todos os males para a humanidade e os que pensam que o seu contido é positivo. Se isto o mesturamos com um pouco de ufologia e naves espaciais já temos todos os ingredientes para uma história mais que notável.

15 de setembro de 2008

#2 - Mu, o continente perdido



Mu e a Atlântida (ou Atlântis), são os exemplos mais conhecidos de civilizações/continentes/ilhas de carácter lendário, mítico ou, quem sabe, talvez real que teriam sido desaparecidas num passado muito remoto como consequência dum acontecimento catastrófico que as teria submergido sob as águas dos oceanos. Se reparamos nas tradições de muitas das civilizações mais antigas, aginha nos havemos decatar do habitual que resultam estas histórias de cataclismos, dilúvios e cidades desaparecidas que servem em muitos casos como mito de fundação ou como lição do que os deuses podem fazer no caso de existir uma relaxação na moral e os costumes.

Precisamente o mistério que envolve a todas estas histórias fixo que estas pervivissem fortemente no imaginário popular colectivo e que alimentassem a imaginação de sucessivas gerações em novas histórias que recolhiam elementos das antigas. São incontáveis os relatos novelescos, filmes, videojogos, etc. que fazem referência á Atlântida ou a algum outro dos mitos dos que falamos. Mas também o mundo da ciência se interessou por estas histórias. Foram muitos os especialistas que quixeram ver detrás destas lendas uma existência histórica real ou, quando menos, interpreta-nas como o reflexo duns feitos reais transfigurados, dirigindo as suas perguntas em torno à sua existência, as suas características, localização e causas da desaparição destes lugares. Desta maneira, as interpretações existentes são muito variadas, indo desde as teses mais sérias dum ponto de vista científico (maremoto, fim da era glacial, identificação com Tartessos, etc.) até aquelas com uma intervenção sobrenatural ou extraterrestre (alguns falam duma civilização altamente avançada tecnologicamente em contacto com extraterrestres).

Certamente resulta difícil não sentir-se atraído por temas coma estes, tanto na vertente digamos «literária» como na científica, e é a razão de dedicarmos estas linhas a uma introdução ao tema recomendando a leitura de Mû de Hugo Pratt. Esta obra, especialmente recomendável para os amantes das histórias de aventuras e/ou da banda desenhada, supõe a última das histórias nas que o autor italiano utiliza como protagonista ao Corto Maltese quem, em companhia doutros dos seus amigos, viaja até as águas do Caribe na procura do mito. Destaca o grande labor de documentação desenvolvido por Pratt que alude ao longo da obra ao Timeo de Platão, às lendas mesoamericanas sobre a cidade de Atzlán (que algúns identificaram com a Atlântida) ou a muitas das teorias sobre estas civilizações perdidas. Também é destacável como a modo de introdução se incluem uma série de textos de vários autores (além do próprio Pratt, de Augusto Bruno, Pietro "Pit" Piccinelli, Eddy Devolder e Gianluigi Gasparini) nos quais se tratam diversos temas: as teorias de Churchward sobre Mu, os contactos transoceânicos antes de Cristóvão Colombo (romanos, celtas, irlandeses, vikingos, Niccolo Zeno, Templários, o Fusang dos chineses), ou os códices americanos troaniano e borgia (dos quais se reproduzem algumas tabelas).

Por suposto, além do pouso histórico e «atlantista», esta BD oferece uma história de grande força, na que sonho e realidade são confundidos em muitas ocasiões («...e recorda que a saída está nos sonhos!»), e que sem dúvida entusiasmará àquelas pessoas amantes dos mistérios, as lendas e as civilizações antigas. Tudo isto com a sinatura do considerado pola crítica como um dos grandes da BD.